NOTÍCIAS

“Mais de 50% da população é negra, mas parece que para a sociedade isso é invisível”, afirma dirigente da CUT-RS

Publicado em 26/03/2018

Março é o mês da mulher. No dia 8 é “celebrado” o Dia Internacional da Mulher. Entretanto, com tantas diferenças ao pensar na relação homem-mulher, é questionado o quanto essa data deve ser comemorativa. Com salários mais baixos, mesmo com nível de escolaridade equivalente; com diferentes formas de violência contra a mulher; com assédios e abusos; com tudo que faz um gênero ser opressor (masculino) e um oprimido (feminino); a data é de luta e resistência.

Ainda, o 21 de março é o Dia Internacional contra a Discriminação Racial. Afetando também, obviamente, homens, o Sindicato dos Metalúrgicos de Canoas e Nova Santa Rita (STIMMMEC) conversou com a secretária de Igualdade Racial da CUT-RS, Angélica Nascimento, a fim de unificar o mês de março com a questão racial, evidenciando a mulher negra, mas não esquecendo do homem.

STIMMMEC: Dentro da questão da mulher, a gente tem outra pauta delicada, que é a questão racial. Mulheres brancas e mulheres negras apresentam desigualdades também, como, por exemplo, com os estudos. As mulheres negras estudam menos que as mulheres brancas. Comotitular da Secretaria de Igualdade Racial, qual é a tua visão desse problema do racismo no mercado de trabalho, que é um problema histórico que atinge as mulheres?

Angélica: A discriminação racial é muito velada. Às vezes,  as próprias mulheres negras não sentem, dizem “ah, eu não senti, não vejo essa questão”. Contudo, nós, que trabalhamos no movimento sindical, vemos, e isso é fato. Se tu fores ver, no mercado de trabalho – eu posso falar enquanto sapateira nas empresas de calçado – dificilmente tu podes ver uma mulher negra à frente, sendo auxiliar ou chefe, então isso já é uma forma de discriminação.

Sem contar que as mulheres negras, no mercado de trabalho, sempre estão nos locais mais escondidos, nunca à frente. Nós dissemos que nós, mulheres, dentro de uma empresa, mesmo se tivermos a mesma profissão de um homem, por exemplo, se tiver um homem como profissão cortador e tiver uma mulher como profissão cortadora, a mulher vai ganhar menos que o homem. E se houver uma mulher negra na mesma profissão, ela ainda vai ganhar menos que uma mulher branca.

Eles fazem isso, mas é uma forma da discriminação ser muito velada. E isso não é só no ramo do calçado, é na metalurgia, é nas comerciárias, na cadeia produtiva. Inclusive, se a gente for ver, quantas professoras negras têm? Quantos professores? Porque a gente fala, no mês da mulher, mais da mulher, mas se nós formos ver, a sociedade como um todo é racista porque mesmo os homens brancos recebem mais que os negros. E nos cargos de chefia também tu vês raríssimos negros em cargos de chefia. E se houver um negro ou uma negra sendo chefe, o salário deles é menor que de qualquer branco.

Eu acho que a gente tinha que cada vez mais nos unirmos. Brancos, independente da cor da pele, porque se nós formos ver, aqui no Brasil, mais de 50% da população é negra, só que parece que para a sociedade isso é invisível. Essa semana que passou, uns dias depois do 8 de março, nós vimos mais uma vez: uma mulher, da favela, negra, que estava se destacando e que foi brutalmente assassinada – executada, porque aquilo ali não foi uma bala perdida. Aquilo ali, para mim, foi uma execução de uma negra, que como a sociedade diz, estava mexendo com quem não deveria. Uma mulher, negra, que ousou estudar, ser vereadora e lutar contra a discriminação racial, principalmente, na favela.

Todo mundo está falando que o Rio, ou qualquer lugar, tem que combater a violência. Se tu fores ver, a violência está em todos os lugares. Não só na favela. Mas eles falam da favela para dizer que lá é que está a criminalidade. Por que quem mora nas favelas e nas periferias? A maioria são negros e negras pobres. Se tu fores ver nas periferias, todo mundo fala, mas não é só nas favelas e periferias que têm bandidos e assassinos. Se tu fores ver, quem banca a criminalidade? Não é quem mora nas favelas, porque as pessoas que moram na periferia sucumbem ao crime organizado.

De onde vem a droga? Quem mora na favela não tem dinheiro para financiar o narcotráfico. Ele entra na favela como uma forma de exploração daquelas pessoas que moram lá. Eles exploram. E aí acontece que nem agora, com os militares na rua para dizer que vão acabar com a violência. Eles não vão para onde eles deveriam ir para acabar com a violência. Eles falam no morro como se só nos morros tivessem bandidos, assassinos, ladrões e traficantes. E a gente sabe que não é só no morro.

STIMMMEC: A gente tem, no momento, um período totalmente desfavorável à classe trabalhadora com crise política e econômica. E aí o foco dos trabalhadores acaba sendo uma inserção no mercado de trabalho mesmo que precarizado. Na tua visão, como secretária da CUT, tu achas que o racismo muitas vezes passa batido nessa inserção? Ele é naturalizado? Ou, ainda, ele é minimizado pelas próprias trabalhadoras e trabalhadores nesse momento de crise?

Angélica: Nós estamos passando por uma conjuntura muito difícil. Às vezes, passa batida essa questão da discriminação até por ser muito velada. Mas nós sabemos que as primeiras a serem demitidas, quando bate a crise no mercado de trabalho, são as mulheres e, com certeza, as negras mais ainda. As primeiras a perderem os postos de trabalho são as mulheres, com toda certeza. Nós, que trabalhamos essa questão, e procuramos ter uma sociedade mais justa e igualitária onde não tenha discriminação tanto em relação às mulheres, mas mais à negritude, sabemos que existe muita discriminação relacionada às mulheres e muito mais acentuada na questão racial.

Se tu fores pegar as demissões em postos de trabalho, as mulheres são as mais atingidas e se formos ver quem mais perdeu com empregos foram as mulheres negras. Não tem como provar, levando para o lado da discriminação, mas a gente sabe. É velado. Não tem nenhuma forma de desmistificar, de chegar e dizer “as mulheres foram demitidas por discriminação”.

Ela tem que ser dona de casa, cuidar dos filhos. A sociedade impõe muito mais para as mulheres, a questão da dupla ou tripla jornada de trabalho. Ela tem que trabalhar, cuidar dos filhos, é responsável pelos filhos na creche e no colégio. Quando bate a crise, essas mulheres são as primeiras a perder os postos de trabalho porque elas são muito mais vulneráveis a ter que faltar para cuidar dos filhos.

STIMMMEC: Na tua atuação, que é próxima à classe trabalhadora, o que é mais corriqueiro nos casos de discriminação? E, neste caso, qual é a função da CUT, atuado junto aos sindicatos, para solucionar essas situações?

Angélica: Dificilmente, na CUT, tem algum [caso], por isso que é difícil, dentro da Secretaria, fazer algum trabalho. É difícil as pessoas fazerem denúncias. Existem as pessoas que trabalham nos movimentos sociais, nas entidades a quais elas se organizam, e por ali as pessoas procuram para fazer denúncias. Aqui no Sindicato, as pessoas vêm até o Sindicato quando se sentem discriminadas para fazer a denúncia.

E aí tenta-se resolver da melhor maneira possível. Por isso que eu disse que é muito difícil tentar combater como um todo, porque muitas vezes as pessoas são discriminadas, sofrem discriminação, assim como muitas mulheres sofrem, mas elas não procuram as entidades que poderiam dar o apoio para tentar amenizar essa questão. O nosso trabalho é um trabalho formiguinha e que vamos levar muitos anos ainda para combater, de fato, todo e qualquer tipo de discriminação.

As pessoas ainda têm muito impregnado que se elas forem fazer uma denúncia de discriminação, elas vão estar se expondo. Elas ainda têm vergonha. Já se passaram tantos anos da abolição da escravatura, mas muitas pessoas ainda têm isso muito presente. Elas não conseguiram ainda arrebentar esses elos. Elas não têm o entendimento de que, se a gente se unisse e fizesse a denúncia quando cada um sofresse a discriminação, a gente tentaria, minimamente, tentar acabar com isso.

Eu acredito que todo trabalhador que se sentir discriminado deve colocar a “boca no trombone” e procurar o sindicato. Se nós não soubermos o que está acontecendo, não tem como agir. A gente sabe que é difícil uma mulher negra sair das amarras que ela sofre e vive e expor seus problemas, mas acho que enquanto não quebrarmos esse tabu e não enfrentar, estaremos deixamos eles fazerem para nós, para nossos filhos, netos e vai passar e estaremos sempre dizendo que tentamos combater, mas, de fato, a gente faz um trabalho mais paliativo porque não mexemos direto na ferida. As pessoas teriam que perder esse medo de se expor para que outras pessoas não passem o que estamos passando agora.

STIMMMEC: Qual o papel dos trabalhadores negros, em especial das mulheres negras, na luta sindical?

Angélica: Olha, agora tu me pegou [risos]. Existem algumas negras e negros no movimento sindical, mas, como disse anteriormente, a questão racial é muito velada. Têm pessoas que não se sentem discriminadas e quando tu resolves falar sobre isso, muitos dizem que não veem isso. No movimento sindical, assim como nós, que combatemos qualquer tipo de discriminação, é muito difícil fazer esse trabalho racial dentro do movimento, assim como também é muito difícil tu fazeres um trabalho relacionado à questão da mulher.

Para nós, mulheres, que fomos e fizemos parte da direção do Sindicato, é muito difícil porque temos que fazer, às vezes, o quádruplo ou quíntuplo de jornada. Temos a nossa casa, a questão relacionada ao Sindicato e para ti ser reconhecida enquanto direção de um sindicato, tu tens que fazer as mesmas coisas que os homens. Tu tens que ajudar a fazer boletim, porta de fábrica, falar no som, se quiseres discutir a questão da mulher, é tu quem tem que discutir. Mas para discutir a questão da mulher, primeiro é preciso fazer as mesmas coisas que os homens porque se não tu estás no clube da bolinha.

É muito difícil, sabe? Essa questão relacionada à discriminação racial e da mulher no movimento sindical como um todo nós iremos levar mais de 50 anos para, de fato, conseguirmos, dentro do movimento sindical, fazer com que as mulheres e os negros sejam reconhecidos como qualquer um dos homens [brancos] do movimento sindical. Porque os homens, se tu não bateres em cima da mesa, não te respeitam. Pra ti ser reconhecida, tu tens que trabalhar igual eles [homens] ou mais que eles porque se não, tu vai ficar na ralé. O movimento sindical é muito cruel à nossa luta. O discurso é um, muitas vezes, e a prática é outra.

As pessoas gostam de dizer que vão fazer muitas coisas, mas quem faz, pensando na mulher, são as mulheres. Às vezes, os homens nem para ir nas atividades que estão sendo organizadas para levar o nome da entidade para frente, comparecem. Não movem uma palha. Mas depois, para dizer que fizeram atividade, enchem a boca para falar. Quem fez foram as mulheres e quem tratou de levar as companheiras, também. Se tu fores ver, são raríssimos os homens que convidam as mulheres para ir nessas atividades. Atualmente não é mais assim. Mas quando eu entrei [no meio sindical], levar alguma coisa para as reuniões era o mesmo que nada.

STIMMMEC: Alguma mensagem final?

Angélica: Uma coisa que eu acho que fundamental: que o movimento sindical, de fato, discuta essa questão da discriminação racial assim como nós discutimos há muitos anos a questão de igualdade de oportunidade na vida e no trabalho. Mas para a gente discutir e querer implementar isso de fato, algumas coisas da nossa postura nós temos que rever.

 

 

Fonte: STIMMMEC